19 novembro, 2006

Corpo, narcisismo e a cultura das sensações

Entrevista com Jurandir Freire Costa, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sobre a corpolatria. A entrevista encontra-se abaixo:

Corpo, narcisismo e a cultura das sensações [1]
Entrevista com Jurandir Freire Costa

"Radicado há mais de trinta anos na cidade do Rio de Janeiro, e um pensador brasileiro preocupado com as principais questões sociais que aflige a nossa sociedade contemporânea, o psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa tem se destacado notadamente pelas suas incursões no campo social, fazendo da psicanálise seu instrumento principal. Nesta empreitada, Jurandir já analisou a questão da violência e da ética, estudou as psicoterapias de grupo em instituições psiquiátricas, já “redescreveu a psicanálise” através do viés pragmático, trouxe para discussão o termo homoerotismo enquanto preceito ético na clínica e nas relações afetivo-sexuais, criticou o ideal contemporâneo do amor romântico, além de diversos outros sintomas sociais provocados pelo mal-estar contemporâneo. Agora, sua atenção tem se voltado para as conseqüências da corporeidade enquanto sintoma social e sua manifestação na clínica, trabalhado com a perspectiva psicanalítica winnicottiana enquanto referencial teórico. Para Jurandir, os diversos quadros de depressão, angústia, mal-estar, anorexia, bulimia, além das neuroses decorrentes da corpolatria tais como a cultura do corpo, as dietas e regimes para emagrecer e engordar, cirurgias plásticas e de diminuição do estômago, tem provocado aquilo que ele denomina “cultura das sensações”, termo que ele toma emprestado de Peter Gay quando este se refere a “educação dos sentidos”. Se na cultura das sensações, para a psicanálise, estaria eminentemente implícito a questão do narcisismo, para Jurandir, seria o contrário. Para ele, seria justamente o anti-narcisismo que estaria provocando as neuroses corporais atuais, e ele vai acusar dois grandes vilões em nossa sociedade: primeiro, a mídia, representada por todos os ícones que deformam nossa percepção do “eu” e do nosso estar no mundo, e a ciência, representada pela medicina moderna que diz o que é bom e o que é ruim para o nosso corpo, e faz das cirurgias plásticas à fertilização in vitro apanágio das novas bio-identidades. Essa entrevista concedida momentos antes de uma de suas palestras durante a Jornada do Círculo Psicanalítico de Pernambuco, ocorrido em agosto de 2003, nas quais tratou do “O corpo e o narcisismo em Freud” e “A Cultura das Sensações”, Jurandir vai discutir seu trabalho atual sobre a questão do corpo, e explicar porque a noção de narcisismo não é um conceito muito bom para compreender as questões da corporeidade, além de fazer referências ao budismo e ao seu trabalho com a psicanálise winnicottiana.

Como é que você caracterizaria aquilo que você vem chamando de “cultura das sensações”, que é o tema de uma de suas palestras na Jornada de Psicanálise do Circulo Psicanalítico de Pernambuco. Me parece que seus estudos atuais são uma decorrência dos seus estudos sobre o amor romântico já publicados em “Sem Fraude, nem favor”.
Jurandir – O meu problema se encontra com a mudança nas condutas das coisas que estão ao meu redor e também do perfil dos casos clínicos. Ali no amor romântico eu já vinha notando que as pessoas estavam lidando com um outro padrão de satisfação. E meu problema foi, sobretudo, entender que padrão de satisfação era esse, porque, como se diz, uma é a cultura do corpo e a outra é a cultura do prazer, digamos hedonistas. Eu não gosto de nenhuma das duas expressões. Primeiro porque toda cultura é do corpo, não existe cultura que não seja do corpo. E depois dizer que você tem cultura que não busca o prazer, isso é uma invenção, isso não existe. Então o problema é muito mais de caracterizar que tipo daquilo que eu chamo de educação corporal, no sentido do que o Peter Gay chamava de “educação dos sentidos”[2], que tipo de educação corporal hoje em dia é proposta aos indivíduos e que tipo de recompensa, aqui entendida em termos de satisfação. Que tipo de satisfação a gente espera?

De prazer propriamente dito?
Jurandir – Eu acho que satisfação é mais do que prazer, você pode ter satisfação e prazer. Satisfação é quando você tem uma determinada intenção realizada. Muitas vezes a finalidade dessa intenção é ter um prazer imediato, outras vezes não. É simplesmente ter a disciplina, e a disciplina muitas vezes suporta menos restrição, quando não, sofrimento. Mas o objetivo final é sempre a aquisição do prazer. A minha hipótese é que você tem, de fato, uma nova reeducação corporal. Uma nova reeducação do que Peter Gay chamava dos sentidos. E nisso eu acredito que está a matriz de todas as mudanças, que vem todas as decorrências, que é um pouco a intuição do que eu tinha tido em “Sem Fraude, nem Favor”. Eu acredito que a gente está mudando agora de padrão de educação. A educação dos sentidos, que eu chamo de cultura das sensações com vistas a aquisição do plano sensorial, está sendo introduzida no lugar da educação dos sentidos com vistas ao prazer sentimental, a satisfação dos sentimentos.

Isso está vinculado à questão do narcisismo, que é outro ponto que eu acho que você toca, e que também é tema de uma de suas palestras no evento, não é?
Jurandir – Essa é uma questão interessante que você está pondo. Primeiro porque eu já tenho um problema com a noção de narcisismo...

... desde o tempo de “Narcisismo em tempos sombrios”[3]... ?
Jurandir – Pois é, desde Narcisismo em Tempos Sombrios. E a minha idéia é que a noção de narcisismo, sobretudo quando aplicado à cultura, é uma noção que é valorativa, no sentido de valoração pejorativa. Narcisismo eu acho hoje em dia funciona em termos da constituição do eu, assim como a perversão funcionou em termos da constituição da sexualidade. É como se fosse um aspecto de acusação. Como se fosse qualquer coisa má. Eu acho que a maneira que as pessoas vivem não seja uma maneira, enfim, má. Elas podem ter conseqüência de outras formas. Eu acho que Lasch mais ou menos celebrizou e difundiu as idéias da “cultura do narcisismo”[4]. Uma noção muito boa, eu próprio usei... mas hoje em dia eu estou revendo. Eu não acho que a economia desse modo de satisfação seja basicamente uma economia narcísica. Eu acho que dificilmente você vá encontrar nesse modo que eu estou chamando de educação dos sentidos. Educação dos sentidos no sentido clássico, do século XVIII, século XIX, quando se falava de uma educação sentimental.

Então qual é a nova moral e esse novo ethos do corpo nos dias de hoje, Jurandir?
Jurandir – Eu diria que ele tem uma característica muito complicada e difícil, sobretudo a relação com o outro. Eu acho que existe uma relação com o objeto muito presente. Ela varia de modalidades segundo as culturas, de acordo com as experiências pessoais. Eu acho que o que vem acontecendo e o que a gente vem tendo é basicamente uma espécie de outro que nos pede e nos demanda que esse pedido é algo diverso do que a gente vinha tendo culturalmente até agora. Mas também é muito esquemático. A gente identifica que haviam dois pedidos da cultura, que era do tipo: ou eu lhe peço e não digo o que peço, digamos, um pedido enigmático, um pedido, digamos, kafkiano, do tipo o “guardião da lei”, que era um tipo de coisa que a gente percebia o pedido do outro como enigma, ou então o pedido do outro que fazia apelo ao nosso narcisismo, que eu chamaria de “o pedido cristão”, o pedido do tipo “seja tão perfeito quanto um dia você foi antes da queda”. Esse seria o funcionamento narcísico, o nosso velho e bom funcionamento narcísico. Eu diria quem dera que a gente continuasse nele em certos aspectos. Então eu sofria porque eu tentava decifrar o outro, e sofria ou então queria me transformar, e não sabia que eu chegava a um estado de perfeição que só podia imaginar como sendo da plenitude narcísica, que um dia eu havia tido. Hoje é diferente. O outro é basicamente, eu diria que é fundamentalmente, o outro da ciência e o outro da publicidade, essas duas novas grandes formas de autoridade, ou seja, de onde emana a verdade que a gente quer. E esses dois não se colocam como enigmáticos. Eles estão dados. E nem também eles não escondem o que gostariam de pedir. Eles não dizem que são vazios, como o outro kafkiano.

Eles dizem exatamente o que querem?
Jurandir – Sim, dizem. Só que eles mudam amanhã. É a ditadura da fluidez, e depois eles colocam para cada um de nós um pedido de uma posição identitária dificílima, que é a de que eu mude todo dia ou que eu guarde a disposição para mudar todo dia. Ora, daí foi que eu entendi, de fato, o verdadeiro sentido da expressão do Christopher Lasch sobre o “mínimo eu”[5]. E agora eu acho que o “mínimo eu” que o Lasch descrevia nos anos 70 está se tornando mínimo. Entende então qual é a minha hipótese? É um pouco disso que eu estou vendo. As pessoas querem chegar no osso da carne do corpo que é para guardar essa espécie de disponibilidade permanente da fluidez, desse pedido do outro que é uma coisa difícil de você desmantelar. Primeiro porque um está baseado na sedução do prazer sensorial que é a publicidade, e o outro na sedução do poder da verdade, que é a ciência.

E isso me lembrou as referências do Foucault acerca do biopoder e das biotecnologias, da mesma forma que a força dos “talk-shows”, dos “realities shows”, que exploram a intimidade e banalizam a sexualidade.
Jurandir – Com certeza.

É esse o tipo de identificação narcísica que você se refere que está ocorrendo hoje com as pessoas?
Jurandir. É esse o sentido. Sendo que na clínica, você tem o indivíduo médio, o indivíduo ordinário que negocia isso aí. Ele negocia de tal maneira que ele não seja um infiel, “um praticante” desse culto que tenha características quase que de sagrado, embora seja profano, a essa espécie de pedido da ciência e de pedido da publicidade. São as duas grandes formas narcísicas, mas uma é quase tão grande quanto a outra. A gente não olha a ciência porque a gente tem uma reverência à ciência, aos percalços, e às vezes ela é demais. Ela também tem um pedido ideológico terrível. Só que ela efetivamente também pode contribuir para outras coisas, enquanto que a publicidade não, só contribui para o lucro.

E me parece que os dois são narcísicos, mas me parece que os dois conseguem invadir nossa intimidade e nossa privacidade.
Jurandir – Totalmente. Eu acho que o que está havendo ao lado disso é uma espécie de encantamento do corpo, que este por si só não é mal nem bom. Nós já tivemos uma espécie de encantamento do mundo quando Weber dizia quando o mundo era o lugar do maravilhoso, não só do religioso, mas do lendário, do épico, do sobrenatural que estava no mundo. As pessoas viam lobisomem, gnomos, deuses, santos, o mundo era o lugar do milagre, da maldição, e isso se perdeu como ele diz, com o capitalismo e o protestantismo[6] quando se começou a reencantar o interior. O encantamento do mundo deu lugar ao desencantamento do mundo e ao encantamento dos sentimentos. Hoje em dia você está desencantando os sentimentos, e reencantando o corpo.

Eu encontro um pouco isso nas falas de algumas pessoas que estão tentando desesperadamente querendo amar alguém mas não conseguem encontrar alguém que acredite em um projeto afetivo duradouro, e quando encontram, a outra pessoa está com a mesma dúvida.
Jurandir – Com certeza. O que acontece é que o encantamento com o corpo está forjando a outra linguagem da identidade.

E forjando novas identidades?
Jurandir – Sim. São as chamadas bio-identidades.

Isso teria a ver com esses diversos quadros psicopatológicos da modernidade, tais como a anorexia, a bulimia, a depressão, etc. ?
Jurandir - Tem sim, e eu estou percebendo como é que justamente os quadros de anorexia de novo não tem nada de narcísico. Se tiver é no sentido de que já em 84 eu chamava de “narcisismo regenerativo” quando eu analisei a geração AI-5 em “Violência e Psicanálise”.[7] Era o narcisismo da dor. Agora eu curiosamente reencontrei a mesma descrição. Não vejo nada de extraordinário e sim da plenitude. Eu acho o seguinte... eu acho que essas pessoas que estão mais expostas a esta ditadura da fluidez (eu não encontrei um nome melhor, mas eu vou encontrar), esse pedido ao outro, elas tem na história delas alguma coisa que as impede de se perceberem como flexíveis. É curioso porque elas não padecem de menos, como muitas vezes se fala. As pessoas têm um déficit narcísico e tentam compensar com o narcisismo corpóreo. Eu não acho isso. O que eu acho é que elas têm um déficit sim, normalmente quando você pega boa parte dessas pessoas tem história de predicados físicos que elas achavam inferiores. O que é que aquele predicado faz? Aquele predicado ao longo da história é investido como o que? É investido como a capacidade que elas têm de se desligar deles, para poder se tornarem este vazio identitário. Os outros, os chamados normais, o que é que eles têm? Eles têm a impressão que a aparência deles é uma aparência que pode ser mutável, pode ser flexível, porque pode se mudar o tempo inteiro. Quem tem o chamado defeito físico não acredita nisso. Aquilo aparece de tal maneira que eles acham que não se pode desligar. Ora, isso é tudo o que a cultura hoje em dia não quer. Que você tenha uma forma definitiva, que você tenha qualquer coisa.

Então é exigido isso do cidadão em nossa cultura atual?
Jurandir – Sim, é exigido que você se mude o tempo todo, que você se mude enquanto consumidor de tecnologia médica e consumidor de modelos identitários. Quando você tem qualquer coisa que você acha que é algo que lhe torna fixo...

A coisa já mudou de figura, já é outra coisa?
Jurandir – Pois é... é o desespero.

E seria por isso que hoje encontramos tão facilmente os diversos quadros de depressão... eles estariam por aí localizados?
Jurandir – Sim, estaria. Depressão é quando você esvazia e não tem a disposição do modelo. O que você tem é basicamente o modelo de identidade corporal. São os grandes modelos hoje em dia. Agora, é claro, eu não tenho uma visão terrorista disso, eu não acho que a gente vai ter que voltar à idade média, nem ao século XIX. Eu já frisei várias vezes isso: é repressivo, é machista, é preconceituoso, é racista. Melhor esquecer disso. Não era só o amorzinho, a mãe e o pai não. O século XIX era de uma violência extraordinária!

O que eu vejo é que isso forja também uma cultura da violência maciça em cima das identidades contemporâneas. Quanto a isso, ainda é possível um “trabalho sobre si”, na expressão foucaultiana do termo?
Jurandir – Eu acho que está havendo. Não é só um trabalho sobre si, o que acontece é que esse encantamento com o corpo, que você tem três grandes tópicos onde a antiga reeducação dos sentidos foi mudada, que era o dualismo mente-corpo, depois a sensibilidade do sujeito sentimental e finalmente a fabricação do sujeito sentimental da época. Isso tudo acabou, porque daí vieram a neurofisiologia, a neurociência, essas coisas todas acabaram com esse dualismo. Depois a crítica à cultura e a experiência sexual acabou com essa história que meu corpo deve servir de vítima de holocausto, para servir de energia. Finalmente o que acontece é que a corporeidade e a educação era, sobretudo, vista como educação motora e corpórea. A gente está descobrindo outra coisa hoje em dia, que é a educação da introcepção. Isso nunca foi matéria de ascese moral como está sendo agora. E nisso aí vem coisa muito boa. Isso vem curiosamente menos da ciência do que, por exemplo, das espiritualidades asiáticas, da neurofenomenologia.

Inclusive você está trabalhando com esses temas no momento, não?
Jurandir – Estou. Estou trabalhando com isso porque eu percebi que por aí tem uma saída. Eu não sou obrigado a voltar a ser um sujeito sentimental, da interioridade, do complexo, no sentido do sujeito freudiano, não sou obrigado a voltar àquilo, não acho graça nenhuma e nem sou obrigado a cair, digamos, no sujeito da publicidade, da normose social. Então, o que essas pessoas fazem? Com isso aí, elas muitas vezes têm uma capacidade de se reapropriarem da imagem do corpo, que nem é propriamente a imagem da ciência e nem é propriamente a imagem publicitária. E no entanto, elas não vão abandonar essa idéia do corpo. Elas estão adquirindo um vocabulário onde elas são sensíveis a ritmos respiratórios, estados de tensão muscular, estados de tensão articular, estados das vísceras, estados de postura, estados de uma série de coisas que eram impensáveis, a gente está construindo o vocabulário da corporeidade de vida, da mesma maneira que a gente construiu o vocabulário dos sentimentos. Mas veja que aí o corpo vem como? Ele nem vem com aquela fluidez e volatilidade da publicidade, nem vem com aquelas incertezas da ciência. Normalmente isso aí vem como qualquer coisa que as pessoas tem isso como uma espécie de crença que ou elas estão ligadas cosmicamente quando elas são mais espiritualizadas ou elas estão mais ligadas digamos ao que elas chamam de serenidade, anti-consumismo, em suma, você vai criando uma ilha de segurança, você vai criando uma espécie de espaço, de ascese libertária como Foucault dizia. Eu sou muito atento, quando eu comecei a perceber isso, desde uns três, quatro anos para cá.

Eu me lembro que quando você esteve em João Pessoa em 1997, você naquela época já vinha falando sobre isso. Você estava estudando o budismo...
Jurandir – Mas eu não tinha visto a dimensão da corporeidade, e depois é que começou a proliferar casos terríveis, de correção plástica, cirurgias, obesidade, bulimia, anorexia, drogadição, de fisiculturismo heterogênico... começou a explodir e você não tem recurso. Não é que a palavra não funcione, mas, o que acontece é que eu estou trabalhando com três ou quatro pessoas. Não que eu faça isso, eu sou analista. Para o analista e para a psicanálise, o problema do toque no corpo é uma coisa complicada. Tem que ver a dimensão do fantasma, do que se elabora, da linguagem, do significante, mas isso não me impede de trabalhar com profissionais que eu acho que são corretos, que estão fazendo isso. E o fato é que eu estou tendo resultados bastante bons.

Você tem feito o que ? Tem trabalhado com seus pacientes em consultório e os encaminhado para estes profissionais?
Jurandir – É... eu mando eles serem acompanhados. Ao invés de só remédio, remédio, remédio, porque é a única coisa que a gente aceitava, era a ciência psiquiátrica, do tranqüilizante, hipnóticos, anti-depressivos, etc., tem gente lá que eu mando para fazer shiatsu, tem gente que eu mando fazer yoga, tem gente que eu mando fazer toda essa corrente da linha corporal. Não tem nada a ver com Reich, nem hipóteses de libido no corpo, porque essas eu não gosto. Eu acho que é “fake”. É a tradição ruim da psicanálise. O pessoal não quer saber disso. Eles de fato tem o conhecimento da anatomia, então cada vez mais... é extraordinário, é um pouco de medicina, mas com a idéia de libido... é uma espécie de respeito à sensibilidade, a representação que o individuo faz e eu acho que isso permite um mínimo de estabilidade identitária. As pessoas não estão variando o tempo inteiro. Apesar de você dizer tem muita moda nisso aí, mas todas elas são correntes hilariantes, que acabam te propondo algo do tipo: dentro de mim eu posso encontrar o equilíbrio, que não seja simplesmente estar variando conforme a última palavra da ciência ou conforme a última palavra da publicidade.

De algum modo, as pessoas estão redescobrindo a cultura corporal/oriental e trazendo isso para o ocidente, para as suas vidas?
Jurandir – Isso. Novamente eu utilizo aquele esquema foucaultiano como uma espécie de resistência. Mas isso é outra coisa. Por mais que isso pareça estar na moda, pouco importa. Moda é diferente. Moda é uma palavra ruim para falar disso tudo. A gente tem comunicação fácil hoje, as pessoas discutem tudo, moda é diverso. Moda evita criar coisas obsoletas, independentes ou não do beneficio que se traga. Isto é o que a gente chama de “na moda”.

Como é que o meio psicanalítico tem visto estas suas idéias, Jurandir?
Jurandir – Olha, até agora, o que eu posso dizer é que tem visto bem, até porque elas não são novas, e, sobretudo, porque eu estou bem acompanhado, pois estou com Winnicott de ponta a ponta.

Pois é, eu tenho percebido a influência de Winnicott nos seus trabalhos mais recentes, nas suas ultimas entrevistas. Pode falar mais sobre isso?
Jurandir – Pois é, o meu trabalho está cada vez mais basicamente em cima dele. Eu estou tentando extrair tudo o que eu acho de Winnicott que percebo neste setor, e que até agora não tinha sido feito. Até mesmo porque as pessoas estão sendo capazes de entender... todo mundo está com dificuldades. Eu acho que aquele certo tipo de conflito e polaridade que existiu está se acabando diante da dureza do que é você tratar essas pessoas hoje em dia. Para você encontrar um cliente freudiano hoje, você sua a camisa. Alguém que deite, que vá três vezes por semana, que associe... está acabando. Não tem mais isso... ninguém vai seguir mais aquilo.

Independe de onde você more e da cultura a que você pertença?
Jurandir – Independente da cidade em que se vive e se pratique psicanálise. Se você for para Nova Iorque, para Paris, para Berlim, para o Rio de Janeiro, para João Pessoa, para Recife, a dor é semelhante.

E me parece que esse esvaziamento do eu está jogando as pessoas para procurarem uma saída, uma saída religiosa, talvez, como por exemplo, o notório aumento de cultos religiosos católicos e evangélicos.
Jurandir – Aí eu não sei. As pessoas sempre me colocam isso, porque isso é muito comum nas classes populares. Eu não estou estudando isso agora. A minha base é o pedido da clientela, e o convívio com as pessoas de classe média, e aí a religiosidade está vindo, mas não propriamente sob forma de religiosidade, e sim sob forma de espiritualidade asiáticas, que é uma espiritualidade muito curiosa, sabe porquê? Porque nenhuma delas tem em relação ao corpo, a relação que a espiritualidade tradicional, sobretudo monoteísta, tinha. Ou seja, de descrédito, de recalque, todas elas são extremamente indulgentes.Todas elas a espiritualidade é alcançada não por absorção extrema, alma e corpo como era nas outras, mas ao contrário, pela inclusão não da corporeidade, bem tratada, bem cuidada, evidente. Esse tipo de espiritualidade está justamente um pouco nessa zona que eu acredito que é uma zona de menos violência.

De que modo isso?
Jurandir – Porque essa espiritualidade nem é a vicariância da ciência, que muda todo o dia, hoje colesterol é bom, amanhã colesterol é ruim, isso é um inferno na cabeça de todo mundo. Hoje em dia nem é bom nem é ruim. Isso é desnorteante para a cultura do corpo. É a isso que eu chamaria de fluidez, como o é da publicidade. As pessoas arrancam os cabelos amanhã, botam piercing...enfim...

Há alguns anos fui ao Rio de Janeiro e fiquei impressionado com a quantidade de propagandas na televisão de aparelhos e dispositivos para emagrecimento... há uma culto exagerado à boa forma do corpo. Nós conseguimos observar isso aqui no Nordeste, mas de forma menos exagerada. No Rio eu vi uma cultura maciça da boa forma e do emagrecimento para manter o corpo o mais perfeito possível. A quantidade de academias de ginásticas e a superlotação destas é um dado evidente. Os atores do cinema e da tv ditam a norma da beleza física e estética, e as pessoas consomem isso sem pensar e cada vez mais.
Jurandir – É, mas a isso aí eu não acho que seja narcisismo... as pessoas podem ser vaidosas. Eu acho o contrário, é uma cultura o tempo inteiro persecutória em relação ao corpo, não tem nada a ver com aquele ganho de plenitude, pelo contrário, o que as pessoas pedem é que esse outro da fluidez se torne o clássico outro da relação objetal anti-narcísica freudiana: a mãe que nutre e o pai que protege. Quando essas pessoas vão para o nutricionista, para a yoga, ou mesmo para o médico, de farmacologista orgânico que acredita naquilo, eles têm a experiência de tranqüilidade extraordinária. Tem alguém que diga que é isso que é certo.

Ou seja, as pessoas dizem “tem alguém que acredita em mim”? Tem ou outro modelo para elas se identificarem?
Jurandir – Um modelo positivo, que te identifica com isso. Que toma isso, que faz isso. Você pára, porque fluidez identificatória a gente sabe qual é o problema disso, não é? Só existe como possibilidade de abertura. Tem que fixar a identidade em algum momento. Freud chamou isso de narcisismo, pouco importa, hoje para mim é o que Winnicott diz, eu acho melhor chamar simplesmente de “continuidade do eu”. É o vocabulário dele que eu prefiro. Tem que parar. O que a gente está cansado é das pessoas dizerem “não crie hábitos”, “seja transgressor”, “se reinaugure todo o dia”, “se mude sempre”. Isso é impossível, é uma loucura. Ninguém agüenta essa carga. A gente quer rotina, a gente quer hábitos, a gente quer descansar.

Isso tira as pessoas do seu lugar, da tranqüilidade?
Jurandir – Eu acho que sim. É este pedido da sensorialidade é um pedido complicado porque é baseado na vicariância. A gente pode chamar isso de mãe errática. Todo dia está te colocando, não diante de um enigma, nem lembrando do mesmo modelo, pelo qual você se sentia assim, porque é a neurose tradicional, mas pelo contrário, porque altera de cabo a rabo... tem a tecnologia médica do lado de lá e aqui a promessa de gozo sensorial. Então o modelo do sujeito reprimido, era o sujeito que sabia o que o outro queria. Era o modelo inclusive de Marx ou Freud, desde sua majestade “o neném”. Isso é o que significa “adquira essa perfeição”. De maneira que se tinha aquelas depressões, essa ambivalência em relação ao outro, da culpa em relação ao outro, e tudo aquilo. E por outro lado o modelo da felicidade sentimental tem uma vantagem em relação ao modelo da felicidade sensorial: é que o modelo das sensações, isso eu já disse em “Sem fraude, nem favor”, ele é sempre presente. Ele não acumula passagem.

Ele também é moldável?
Jurandir – Ele é mutável em primeiro lugar, e a única coisa em comum que tem é o prazer das sensações que se pode ter mas, por exemplo, ele não tem, digamos, a estabilidade de uma história. Ele não quer saber de história. Então se você pega, por exemplo, uma manifestação clássica da cultura do corpo, da educação corporal na era das sensações. Juvenilidade, a boa forma e a longevidade. Essas pessoas querem no fundo o que? Querem estar atualizando sempre a capacidade de prazer que elas têm.

É como se elas quisessem viver em um gozo eterno?
Jurandir – Elas querem viver! É praticamente é o jogo que só se aproveita no modelo da juventude. Acontece o seguinte, quanto mais elas prolongam a juvenilidade e a longevidade, mas deficientes elas se acham. Não tem como ! Elas não só tem que seguir a regra da juvenilidade (seja jovem!), como tem que seguir a regra da variação. Chega nisso, o que ocorre? A exaustão!

E aí que a gente vê, por exemplo, os clube da “melhor idade”... ?
Jurandir – Isto é a tentativa pífia de recuperar algo que não vai ser. De novo se colocar no compasso de que se teria a possibilidade de gozar que supostamente é atribuída aos jovens. Por isso tem que mudar todo dia. Tem que saber exatamente com que corpo eu gozo. Ninguém está sabendo. Então, todo dia eu estou tentando garantir um novo modelo.

Neste contexto é que encontramos uma certa violência, que em si, é muito forte contra o sujeito?
Jurandir – Sim, claro. Sendo que nisto aí eu não me aprofundei ainda, sobretudo porque a cultura da violência é uma cultura basicamente da marginalidade. Não que por fatores tradicionais, como ponto de reconhecimento, de apropriação, e até também por fatores mais modernos, como a apropriação dos objetos. O que eu acho que acontece com a cultura da violência urbana... eu não pensei ainda bem nisso, mas é que as pessoas marginalizadas têm uma relação com o consumo do objeto que as pessoas incluídas já não tem mais. O consumo mudou por duas coisas: as pessoas pobres querem ter acesso ao tipo de consumo como as pessoas ricas tinham antes. Qual é esse tipo de consumo? Pelo menos eles estão divididos porque a família burguesa, até os anos 50, anos 60, tinha um objetivo claro: o consumo. O consumo existia para você formar o sujeito sentimental. O consumo era a aparência moral. Lucro era a empresa que queria, era a indústria. Quem se apropriava, se apropriava com outro objetivo. Se pensar toda a história do consumo, é um dos tópicos que eu quero abordar, porque é fundamental, mostra que quando eu consumia um objeto era com vistas ao aperfeiçoamento moral da vida privada. Roupa, brinquedos de criança, mobiliário, isso é mais vivido no século XIX, se torne menos vivido no século XX, mas a grande constituição da família nuclear burguesa foi feita às custas de tornar a casa um lugar agradável. Não só um lugar agradável, mas um lugar de cultivo ao conhecimento e à alta pintura intelectual. A explosão do consumo se deu em torno do que a gente hoje acha que são os objetos que permitem a alta cultura. A gente começou a cuidar da infância, com brinquedos, se começou a vestir as pessoas, em particular as mulheres, começou a se cultivar a comida, que dava às mulheres o poderio dentro da casa, em torno da organização da recepção, você começa a cultivar a escrita, a domesticar o corpo para adaptar à usar a escrivaninha, a literalidade dos livros, a leitura em voz baixa, os famosos exercícios de caligrafia, e tudo logo de criança, que era para você poder ler as obras de arte, a ciência, a música, tudo foi feito para o consumo. Papel, tinta, conforto, era para você fazer da casa um lugar sedutor. E tem mais, os objetos de consumo eram objetos que eram deixados para as gerações. Você tinha coisas que passavam de pai para filho. Você tinha coisas que você comprava para deixar para os seus filhos. Tinha o ascetismo, como patrimônio, mas o objetivo era claro. De um tempo para cá, isso acabou.

Não tem mais esse duplo ascetismo?
Jurandir – Em absoluto! Tua forma é simplesmente para poder eu me sentir melhor. Porque eu sei que o meu filho não vai querer o quadro que eu gosto, nem ele vai gostar da música que eu gosto. Eu próprio vou querer largar aquilo no meio do caminho, porque eu vou querer ficar atualizado e gostar de uma coisa moderna. Então, a casa também não faz sentido, porque eu vou me separar. Não tem mais aquele lugar. Metade dos bens vão embora para o segundo, o terceiro o quarto filho, para a segunda mulher, para a terceira, para a quarta... Eu não tenho mais paciência, cuidar de neto? Imagina? E o trabalho? Prefiro morar na cochichina. O filho vai morar na Alemanha, o neto vai nascer na Birmânia.

É o completo desmantelamento da estrutura familiar burguesa.
Jurandir – Toda!

Eu li recentemente o livro da historiadora e psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco, “A família em desordem”, e lá ela fala que essa família burguesa se desmantelou completamente, não somente por conta do advento feminista, o advento da pílula anti-concepcional, depois veio o advento da biotecnologia – pontuado por Foucault, com a fertilização en vitro e a possibilidade de gerar filho sem precisar do pai biológico, depois veio a questão do casamento plurinucleares, onde pais se juntam vindo de outros casamentos com filhos de outros casamentos, para formar uma nova família, e por fim, a possibilidade de constituição da família a partir da homopaternidade onde casais do mesmo sexo juntam-se para constituir uma “nova família”. São as chamadas famílias homoparentais. Nisso a Igreja católica, que é a grande disseminadora da moral sexual, vem bater de frente, criticando essas novas organizações familiares.
Jurandir– É o que eles (os psicanalistas) vem criticando o tempo todo... “ah... o nome do pai!”, o tempo todo. Acabou o nome do pai. Eu não sou de chorar o que se passou. Eu acho que a gente tem que encontrar uma outra coisa, porque aquele nome do pai que se pede tanto, não se enganem com ele.

Notas:
[1] Entrevista concedida ao Psicólogo Sergio Gomes da Silva, responsável pelo site do autor.
[2] Gay, Peter Gay. A educação dos sentidos: a experiência da rainha vitória a Freud II. SP: Cia das Letras, 1988.
[3] Costa, Jurandir Freire. Narcisismo em tempos sombrios in: Birman, Joel (org.). Percursos na História da Psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora. 1988. pp. 151-174.
[4] Lasch, Christophe. A cultura do Narcisismo. RJ: Imago, 1983.
[5] Lasch, Christopher. O mínimo eu. RJ: Imago, 1983 .
[6] Weber, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. SP: Pioneira, 1997.
[7] Costa, Jurandir Freire. Sobre a geração AI-5: violência e narcisismo in: Violência e Psicanálise. RJ : Graal, 1989, p. 117-189.

Cresce o número de jovens em busca do 'corpo perfeito'

Cresce o número de jovens em busca do 'corpo perfeito'
O jornalista Marcus Tavares, da Multirio, fala sobre a indústria da mídia e seu reflexo nos corpos perfeitos. A obsessão de muitos jovens pelo corpo perfeito vem aumetando o número de cirurgias plásticas estéticas. Abaixo segue uma parte da reportagem:

"Nos Estados Unidos, em 2003, a procura aumentou 38% em relação ao ano anterior. De acordo com a Associação Americana de Cirurgia Plástica (ASPS), os jovens representam 4% do total dos pacientes. A realidade brasileira não é nem um pouco diferente. Recordista mundial em cirurgias plásticas, o país registra por ano uma média de 350 mil operações por razões puramente estéticas. Nesta estatística, pacientes menores de 18 anos correspondem a 13% do total, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

De fato, médicos e psicólogos afirmam que a supervalorização do padrão estético veiculado pelos meios de comunicação desperta e estimula a procura pelas cirurgias plásticas. E o que é mais preocupante: por padrões de beleza importados, como avalia o cirurgião plástico Ricardo Cavalcanti Ribeiro: "A procura pelo aumento do tamanho das mamas e dos quadris - o que é incompatível com o corpo das jovens mulheres brasileiras - é um exemplo da influência da cultura americana", explica.

A Associação Americana de Cirurgia Plástica está certa de que esta influência vem crescendo mais ainda depois do surgimento dos reality shows que invadiram a programação das TVs, como as séries "Doctor 90810" e "Extreme Makeover". Este último propõe uma mudança radical na vida de homens e mulheres. Sob a coordenação da Extreme Team, os interessados - que se inscrevem para participar do programa - ganham uma nova "roupagem" graças às intervenções plásticas e uma série de novos estilos de vida imposta. O sucesso pode ser medido pelo número de candidatos: mais de 10 mil pessoas estão na fila do reality show que entra este ano em sua terceira temporada.

No Brasil, além do "Extreme Makeover" - veiculado pelo canal Sony Entertainment Television -, outros programas parecidos também são exibidos, como o "Missão MTV", que tem o objetivo de mudar o visual da pessoa ou de parte de sua casa; e o "Beleza Comprada" (recentemente exibido pela GNT), novela da vida real sobre a busca pela auto-estima nos dias de hoje.

Segundo o cirurgião Ricardo Cavalcanti, esse boom de jovens à procura pelas cirurgias requer cuidado. "Desaconselhamos estas intervenções de caráter exclusivamente estético. Embora as cirurgias plásticas, hoje, estejam mais acessíveis e baratas - o que é muito bom - não podemos banalizá-las. Há casos de meninas que deixam de lado uma viagem ao exterior para se submeterem ao bisturi. Não podemos nos esquecer que trata-se de uma cirurgia que traz consigo todas as suas peculariedades e riscos".

Em seu novo livro "O Vestígio e a Aura" (Editora Garamond), o psicanalista Jurandir Freire Costa, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que a cultura do corpo é fruto do que ele chama de "cultura das sensações", provocada pela mídia - representada por todos os ícones que deformam a percepção do "eu" e "do estar no mundo"; e pela ciência - representada pela medicina moderna que diz o que é bom e ruim para o corpo. Em seu livro, ele aponta: "o corpo dos indivíduos, sobretudo o dos grupos privilegiados do ponto de vista social, econômico e cultural, tornou-se o objeto-alvo do ideal de felicidade sensorial".


Trecho retorado da reportagem de mesmo nome deste post.
Fonte: http://www.multirio.rj.gov.br/portal/riomidia/rm_materia_conteudo.asp?idioma=1&idMenu=3&label=Mat%E9rias&v_nome_area=Mat%E9rias&v_id_conteudo=373

18 novembro, 2006

Carta publicada na coluna Opinião dos Leitores do Globo

A carta foi publicada hoje, 18/11, na coluna Opinião dos Leitores do Globo. com uma edição ridícula, mal feita, mas foi. Eles recortaram tanto o texto que ficou completamente sem sentindo.

As revistas Época, Isto É e Veja trouxeram, como reportagem de capa, a morte da modelo. Todas abordaram a doença. Mas, e a questão da mídia????? Deixou a desejar.

A revista Época criou um blog para os comentários.

No Jornal O Globo de hoje, outra morte é anunciada. Uma jovem de 22 anos, estudante de psicologia, queria entender sua doença, mas acabou morrendo de parada cardiáca vítima da anorexia. Ela dizia que preferia a morte do que ser gorda.

Voltei a escrever para o Manoel Carlos. Escreverei também para as revistas sobre Educação. Esses acontecimentos não podem passar em branco.

16 novembro, 2006

Carta para coluna Opinião dos Leitores do Globo

Fiquei indignada com as reportagens e notas sobre a morte da modo. Nilma sugeriu que eu escrevesse para a coluna Opinião dos Leitores do Globo. O texto encontra-se abaixo.

Comprei todos os jornais de hoje para acompanhar os fatos. Os paulistas deram maior ênfase.

"Na quarta-feira, feriado nacional, logo cedo liguei a tv e a primeira notícia veiculada foi a morte da modelo paulista de 21 anos. Causa da morte: anorexia nervosa. Fiquei perplexa! Ana Carolina, uma linda jovem, morre de complicações renais causadas pelo distúrbio alimentar, que tinha desde de 2003. A paulista que já foi capa de revistas nacionais e internacionais, dona de uma beleza ímpar, se auto-punia para ter o corpo perfeito. Seria um efeito da modernidade? Em cena dramática, a mãe da modelo faz um apelo às famílias: cuidem de seus filhos! O presente fato traz a tona, mais uma vez, porque a mesma notícia já foi capa de revista e tema de programa de tv, os efeitos da mídia, da sociedade do espetáculo (segundo o fiflósofo francês Guy Debrod, a representação da realidade), no comportamento dos adolescentes e jovens.
Ao sentir a repercursão que o fato traria, fiquei grudada na tv e na internet. No Jornal Hoje, mais uma reportagem sobre a morte da modelo. Contraditoriamente, a reportagem subsequente é sobre a fome, precisamente, a comemoração dos 60 anos do livro "O mapa da fome", de Josué de Castro, que apesar da idade é ainda tão atual.
Enquanto uns morrem por não terem o que comer, outros morrem porque querem ser belos, terem o corpo perfeito. Representarem um papel social? Mais uma vez o filósofo francês, que ao falar da sociedade, aponta para a degração do ser para o ter. A realidade individual é moldada pela social. Eu não sou, mas eu tenho um corpo perfeito, tenho sucesso, tenho dinheiro, tenho roupas da moda. Sempre o ter. Não tenho comida, não tenho casa, não tenho dinheiro.
A notícia está estampada nas páginas dos principais jornais desde o ocorrido. O que acontecerá agora? Que políticas públicas serão adotadas? Que campanhas educativas serão propostas?
Não podemos deixar esse fato passar em branco. Ficam aqui as perguntas.
Aparecida Padilha
Pedagoga/ Mestranda do Núcleo de Tecnologia Educacional das Ciências da Saúde (NUTES/UFRJ)"

15 novembro, 2006

Como a mídia abordou a morte da modelo?

Mais sobre o assunto...
O link do título é da Folha de São Paulo. Vale a pena ler. Abaixo outra reportagem e a entrevista com jornalista especialista em agências de modelo. Pura apologia ao mundo da moda. Ela implicitamente culpou as próprias modelos e as famílias que as deixam morar sozinhas.

Reportagem publicada no site do Jornal Hoje, da Rede Globo:
A história de Ana Carolina é a mesma de tantas meninas que, do dia para a noite, viram estrelas da passarela. Nascida no interior de São Paulo, ela foi descoberta num shopping pelo olheiro de uma agência e começou a trabalhar aos 13 anos. Morou em São Paulo e no exterior - a mãe, artesã de jóias, queria acompanhar a filha - mas faltava dinheiro. “Ela achava que podia me ajudar trabalhando para não faltar nada em casa”, contou Míriam Reston, mãe da modelo.
No começo de outubro, a jovem de 21 anos, foi hospitalizada e nesta terça-feira morreu, vítima de complicações causadas pela obsessão por magreza. Ela tinha 1,74 de altura e estava pesando apenas só 40 quilos.
Ana Carolina estava com anorexia nervosa. A doença surgiu há dois anos e meio, quando voltou de um trabalho na China. A modelo disse para uma tia que tinha muita vontade de comer feijoada, mas comeu tão pouco que a família começou a perceber que a falta de apetite e a vontade de emagrecer estavam passando do limite.
“Ela ainda dizia que estava com uma barriguinha, mesmo estando muito magra”, disse Mirtes Reston, tia da modelo. A família não conseguiu convencer a modelo a procurar tratamento. “Ela dizia: mãe, não briga comigo, eu não quero comer, a comida não desce’. Era para eu não brigar com ela, mas eu não falava nada”, relembrou a mãe.
A anorexia nervosa é um distúrbio alimentar em que a pessoa pára de comer porque se sente gorda. O problema atinge, principalmente, mulheres jovens. “Bailarina, grupo de risco, todo mundo que está envolvido com a beleza, com a imagem do corpo como instrumento de trabalho”, disse Alexandra Magna Rodrigues, nutricionista.
A nutricionista alerta que os jovens estão muito expostos à idéia de que a magreza é beleza. “Gente, pelo amor de Deus, cuidem de seus filhos, abra o olho para não perder como eu perdi a Ana”, pede a mãe de Ana Carolina.


Lilian Pacce, jornalista que cometou o assunto:
Para falar sobre as exigências do mundo da moda, recebemos no estúdio a jornalista especializada no assunto: Lilian Pacce.
JH: Esta notícia sobre a modelo Carolina deixou todos chocados. É uma obsessão de todas as modelos ou um fato isolado?
Lilian Pacce: O mercado tende a provocar esse tipo de obsessão porque a magreza é uma exigência para você ser modelo. É muito comum na adolescência esse tipo de distúrbio alimentar. A questão é que entre as modelos elas não têm o apoio da família, que geralmente não mora com elas, e não detecta o problema há tempo para solucionar. As modelos geralmente moram com modelos, então uma alimenta a neurose da outra. Isso acaba gerando a uma fatalidade como essa.
JH: Você esteve na semana de moda da Espanha, em setembro. As modelos magras demais foram proibidas de desfilar. O que aconteceu por lá?
Lilian Pacce: A semana de moda de Madri é uma semana de moda secundária. E por uma boa causa eles fizeram uma grande jogada de marketing, que foi essa coisa de modelo passar por teste de medida e peso. Isso é bom porque levanta essa questão do mercado, e lá aconteceu que eles exigiram que as modelos se submetessem a exames para serem aprovadas. Muitas não se submeteram a isso, preferiram pular essa semana, que já não tem tanta importância.
JH: Você falou que a magreza é uma exigência do mercado. Mas não essa magreza doentia, não é?
Lilian Pacce: A doentia não é. Não interessa para o mercado que uma modelo fique doente. Porque senão ela não dá conta dos compromissos profissionais que ela tem. Então ela não gera o dinheiro que ela pode gerar. As próprias agências costumam ter dentro da agência, profissionais que cuidam da modelo. Agora, nada como o apoio da família, olhando quando isso acontece. A gente não pode generalizar, falando que o mercado obriga. O mercado existe sim um padrão de beleza, que algumas pessoas querem, mas as agências se preocupam com isso porque elas precisam das modelos saudáveis.

Morte de modelo, carta para autor

Voltei a escrever para o autor Manuel Carlos. Preciso fazer isso, fiquei comovida e revoltada com a notícia da morte causada pela anorexia nervosa, da modelo paulista de 21 anos. Não podemos, como pesquisadores e atores sociais, deixar o fato passar em branco. Eis a carta:

Não é a primeira vez que escrevo. Especialmente hoje, volto a escrever. logo cedo liguei a tv e a primeira coisa que vi foi a notícia da morte da modelo paulista de 21 anos. causa: anorexia nervosa. fiquei perplexa! enternada desde setembro, ana carolina, uma linda jovem, morre de complicações renais causadas pelo distúrbio alimentar, que tinha desde de 2003. com peso abaixo do normal, precisamente 40 kg, a paulista já foi capa de revistas nacionais e internacionais. dona de uma beleza ímpar, sofria porque não tinha vontade de comer, pois as passarelas lhe exigiam um corpo magro. a mãe da modelo, chorando muito, faz um apelo às famílias: cuidem de seus filhos! o presente fato traz a tona, mais uma vez, porque a mesma notícia já foi capa de revista e tema de programa de tv, os efeitos da mídia, da sociedade do espetáculo (segundo guy debrod, sociólogo francês, autor do livro a sociedade do espetáculo, que nada mais é do que a representação da realidade), no comportamento dos adolescentes e jovens.

ao sentir a repercursão que o fato traria, fiquei grudada na tv e na internet. na hora do almoço, no jornal hoje, mais uma reportagem sobre a morte da modelo. mas, agora com uma entrevista com uma jornalista que coloca que a culpa não é da mídia e muito menos da sociedade, mas das meninas e, subentende-se, das que moram sozinhas, longe das famílias, que não sabem que elas sofrem de tal distúrbio. contraditoriamente, a próxima reportagem é sobre a fome, precisamente, a comemoração dos 60 anos do livro "o mapa da fome", de josué de castro, que apesar da idade é ainda tão atual.

enquanto uns morrem por não terem o que comer, outros morrem porque querem ser belos, terem o corpo perfeito. mais uma vez trago guy debord, que ao falar da sociedade, aponta para a degração do ser para o ter. a realidade individual é moldada pela social. eu não sou, mas eu tenho um corpo perfeito, tenho sucesso porque tenho condições de ter um corpo perfeito. sempre o ter. não tenho comida, não tenho casa.

especialmente hoje, pergunto: que tipo de abordagem o autor dará ao distúrbio alimentar que a adolescente gisele tem? percebi que o tema perdeu-se, pelo menos não vejo mais nenhuma abordagem. num mometo oportuno como esse, com a notícia está estampada nas páginas dos principais jornais online, caberia a mídia, como veículo de comunicação de massas, questionar as autoridades. que políticas públicas serão adotadas? que campanhas educativas serão propostas? não podemos deixar esse fato passar em branco. não podemos deixar os jovens morrer!

sugiro voltar com o tema para debate. aproveitar os pontos de audiência e divulgar uma campanha para os jovens e as famílias sobre os danos presentes na nossa sociedade, a sociedade do espetáculo.

Aparecida Padilha
Pesquisadora - NUTES/UFRJ

12 novembro, 2006

Carta publicada

Depois de quase dois meses, a carta enviada ao jornal o Globo foi publicada. Enviei um elogio à revista por cota da reportagem sobre a divulgação da Campanha Mundial Contra a anorexia. A carta foi editada, mas foi publicada. Fiquei feliz pela reportagem e pelo reconhecimento.

01 novembro, 2006

Contato professora UNIRIO

A professora Giane Moliari Serra, da Escola de Nutrição da UNIRIO, pesquisa os discursos da mídia sobre a promoção da saúde nutricional. Doutoranda da FIOCRUZ, desenvolve a tese "Comer com os olhos: discursos midiáticos televisivos e promoção da saúde nutricional de adolescentes" . No mestrado, ela dissertou sobre "Saúde e Nutrição na Adolescência: o discurso sobre dietas na Revista Capricho".

Entrei em contato para trocarmos figurinhas. Li sua dissertação, que trouxe algumas reflexões para minha pesquisa.

08 outubro, 2006

Post de outro blog

Blogs abrem espaço para moda de rua

O estilo moda de rua, na qual não vigora a ditadura das etiquetas, das grifes nem dos preços, chegou ao mundos dos blogs. Ao invés – ou em reação – ao mundo da moda, blogs em várias cidades do mundo registram em imagens gente comum que faz sua interpretação pessoal do que se propõe nas passarelas.

O que emerge é o indivíduo, a personalidade, as culturas diferentes. As culturas se espalham como mancha de azeita e, em 10 dias, o que era moda em Nova York já está em Shangai.
A reportagem, traduzida no jornal La Nacion, foi originalmente publicada na Itália, país ligado à moda por excelência, no qual ainda não apareceu nenhum blog subvertendo o imposto pelos estilistas.

É só mais um sinal de que moda, como sinônimo de massificação, acabou. O que conta hoje é a tal da customização. Cai mais uma falsa oposição: de um lado, a alta-costura produzindo peças exclusivas aos ricos, de outro, a moda de massa para ser consumida por todos. E, a julgar pelos desfiles da semana de moda em Londres, o que vai pelas passarelas faz cada vez menos sentido para quem pretende andar na rua todos os dias.

Hoje, na era da singularidade, todos querem se distinguir, usando a roupa como linguagem, mesmo quando parece (leia o post abaixo sobre a roupa de HH) querer ignorar a roupa como forma de expressão.

Para navegar pelos blogs citados na reportagem, siga os links:

http://thesartorialist.blogspot.com
http://www.torontostreetfashion.com/
http://facehunter.blogspot.com/

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